As Raízes do Tempo (Les Racines du Temps) é fruto de dois períodos de residência. O primeiro foi um confinamento forçado em um apartamento-ateliê em Ivry-sur-Seine, no início da pandemia de Covid-19. O segundo, uma residência de pesquisa e criação na École des Beaux-Arts de Marseille, dentro do programa transdisciplinar White Mountain College.
O fascismo temporal contemporâneo me levou a querer perceber o tempo, observá-lo e escutá-lo, buscando nele pistas para sobreviver à transformação do mundo em tempos de pandemia. Assim nasceram esses objetos-relógio da era (pós-)Covid.
A dilatação temporal vivida mundialmente durante o primeiro confinamento de 2020 conduziu minha prática a uma espécie de “tecelagem temporal”. Primeiro usei as cordas da performance 4 (a) ch/cords para dar existência a objetos surrealistas, que transpunham as sensações vividas durante a ativação da peça dançada.
Cada modelo de relógio tornou-se o enunciado de uma pesquisa: o estudo dos nós e dos desenlaces, a escuta do tempo e do silêncio, a leitura de poesias e romances, uma percepção cinematográfica do tempo. A natureza também está presente, pela mutação da flora que serviu de matéria para algumas dessas esculturas temporais.
Esses objetos surrealistas do cotidiano, cuja função se torna absurda pela inversão do tempo, tocam em cheio a ferida narcísica da vaidade humana. Instaladas juntas, as peças dialogam entre si; algumas se devoram mutuamente e se autoproduzem. O próprio tempo se estende ao infinito.
Inspirado em uma passagem de Hiroshima mon amour, de Marguerite Duras, L’horloge de l’amour et du temps (O relógio do amor e do tempo) une essas duas noções. A gravidade, que nos atrai tanto para a frente no espaço-tempo quanto para a terra, deu origem a Chute avant (Queda para a frente). Outros relógios enfrentam a história de quatro séculos de escravidão, tortura e desumanização sofridos pelas populações negras e mestiças: Esclavage temporel (Escravidão temporal), Comment rectifier les erreurs du passé ? (Como corrigir os erros do passado?) e Antagoniste n.01.
O projeto foi tema de uma exposição individual no POUSH, em Clichy, onde uma performance foi apresentada na abertura.
Ficha técnica
Título As Raízes do Tempo (Les Racines du Temps)
Anos 2020-2023
Técnica Cordas, relógios, tempo e materiais diversos
Apresentações Les Racines du Temps, POUSH Manifesto, Clichy, 2022, curadoria a-topos’ (Gaya Goldcymer e Jonathan Taib); White Mountain College, Beaux-Arts de Marseille, 2020; As Raízes do Tempo, Centro Cultural da Diversidade, São Paulo, 2021
Vídeo NanoVille Film, POUSH Manifesto, Clichy, 2022
Vista da exposição, Les Racines du Temps, residência White Mountain College, Beaux-Arts de Marseille, 2020
Vista da exposição, As Raízes do Tempo, Centro Cultural da Diversidade, São Paulo, 2021